Setembro de 2010, um quarto de hotel em Indianápolis, durante o Concurso Internacional de Violino da cidade. Vinte e um violinistas experientes entram, um de cada vez, com óculos de soldador adaptados que escondem o instrumento. Sobre a mesa, seis violinos: dois Stradivari, um Guarneri "del Gesù" e três novos, que juntos valiam cerca de cem vezes menos. No fim do dia, o mais escolhido era um dos novos. O menos querido, um Stradivari.
O experimento, publicado em 2012 na revista PNAS pela pesquisadora Claudia Fritz e pelo Luthier Joseph Curtin, não mostra que violinos antigos sejam piores. Mostra algo mais útil para quem vai comprar: sem nome e preço à vista, o ouvido julga de outro jeito.
Antes do som, o tamanho certo
As frações não são literais: o corpo (a caixa, sem braço e voluta) de um 1/2 tem 31 a 32 cm, não a metade dos 35,5 cm do 4/4 adulto. Para crianças, a referência mais segura é o braço. O método da casa alemã Corilon: braço esquerdo esticado à frente, mede-se do início do ombro até o meio da palma. Em posição de tocar, a criança deve conseguir envolver com a mão a voluta, a espiral na ponta do braço do instrumento.
| Tamanho | Corpo (cm) | Braço: ombro ao meio da palma (cm) | Idade aproximada |
|---|---|---|---|
| 1/16 | 23 | 34 a 43 | 3 a 5 anos |
| 1/8 | 25,5 | 42 a 44,5 | 4 a 7 anos |
| 1/4 | 28 | 44,5 a 51 | 5 a 8 anos |
| 1/2 | 31 a 32 | 50 a 57 | 6 a 9 anos |
| 3/4 | 33,5 | 56 a 60 | 7 a 11 anos |
| 4/4 | 35,5 | acima de 60 | a partir de 11 anos e adultos |
Medidas aproximadas, que variam entre fabricantes. Existem ainda o 1/10, entre o 1/16 e o 1/8, e o 7/8, para mãos pequenas.
Entre dois tamanhos, escolha o menor. Um violino um pouco pequeno é bem mais fácil de tocar do que um grande demais, que força o ombro, o pulso e a afinação da mão esquerda.
O que você está ouvindo (e sentindo) quando experimenta
"Som bonito" é vago demais para orientar uma compra. Ajuda separar quatro qualidades. O timbre é a cor do som, mais clara ou mais escura, e o equilíbrio entre as cordas. A resposta é a rapidez com que a corda "fala" quando o arco encosta. A projeção é o quanto o som chega ao fundo da sala. E a tocabilidade reúne o conforto: altura das cordas, formato do braço, facilidade nos agudos.
Em Indianápolis, os violinos novos receberam notas significativamente melhores justamente em tocabilidade e resposta; em timbre e projeção, a diferença não foi estatisticamente relevante. O que o músico sente na mão pesa tanto quanto o que ele ouve.

Madeira e verniz: o que os olhos podem dizer
Na tradição clássica, o tampo é de abeto (spruce), leve e elástico; fundo, faixas e voluta são de bordo (maple). O flamejado do bordo encanta os olhos, mas não garante som: o que conta é a qualidade e a secagem da madeira, e como ela foi trabalhada.
O verniz alimenta mitos, quase sempre ligados a Stradivari. Em 2009, a equipe de Jean-Philippe Echard, do Musée de la Musique de Paris, analisou cinco instrumentos do mestre e encontrou óleo secativo, resina de pinho e pigmentos, materiais comuns no século XVIII. Diante de um violino, o verniz diz mais sobre cuidado do que sobre som: acabamento uniforme e transparente, que deixa ver a madeira, é bom sinal; camada grossa, opaca ou brilhante como plástico pode indicar produção apressada.

Artesanal ou de fábrica: a diferença que importa
Um detalhe dos testes cegos se perde nas manchetes: os violinos novos que enfrentaram os Stradivari eram de Luthiers contemporâneos de alto nível, não de fábrica. A conclusão justa não é que qualquer violino novo vale um Stradivari, e sim que um instrumento bem construído e bem ajustado pode soar tão bem quanto um antigo célebre.
Feito em atelier
- Construído à mão por um Luthier ou uma pequena equipe.
- Madeira escolhida peça a peça; espessuras ajustadas a cada instrumento.
- Produção pequena: em Cremona, de três a seis instrumentos por ano.
- Preço reflete semanas de trabalho e a assinatura do autor.
Produção seriada
- Etapas divididas entre muitas mãos, parte delas mecanizada.
- Preço acessível e boa regularidade entre exemplares.
- Qualidade varia muito entre marcas e lotes.
- O resultado depende muito do ajuste feito depois, por um Luthier.

Três mitos que custam caro
"Quanto mais caro, melhor o som"
Em Indianápolis, os três violinos antigos somavam cerca de 10 milhões de dólares, segundo Joseph Curtin, quase cem vezes o valor dos três novos. Mesmo assim, na hora de escolher um instrumento para "levar para casa", a maioria preferiu um novo.
"Antigo é sempre melhor"
O teste foi repetido em 2012, perto de Paris, com dez solistas internacionais e doze violinos (seis italianos antigos, cinco deles Stradivari, e seis novos), e em 2017 com 137 ouvintes em Paris e Nova York. Em média, os novos venceram de novo, inclusive em projeção. Os antigos não são ruins: um Stradivari da "época de ouro" ficou em terceiro lugar entre os solistas. A idade, sozinha, só não decide.
6 de 10 solistas levariam um violino novo para uma turnê imaginária (PNAS, 2014)
137 ouvintes julgaram projeção e preferência às cegas (PNAS, 2017)
3 de 17 violinistas acertaram se o seu favorito era antigo ou novo (PNAS, 2012)
"Um bom ouvido reconhece um Stradivari"
Os solistas de Paris tiveram 30 segundos por violino para dizer se era antigo ou novo e acertaram cerca de metade, o mesmo que cara ou coroa. E o gosto variou: até os violinos mais populares foram descartados de cara por pelo menos dois solistas.
"Não encontrei nenhuma consistência. Nunca. As pessoas não concordam. Elas simplesmente gostam de coisas diferentes."
Claudia FritzPesquisadora em acústica, Institut Jean Le Rond d'Alembert (CNRS), Paris, à rádio NPR, 2012 (tradução livre)
Como testar sem se enganar
O método dos testes cegos, em versão simplificada para o comprador:
- Leve o professor. Ele conhece sua técnica e seus vícios, e pode tocar enquanto você escuta de longe.
- Defina o orçamento antes. Testar fora dele só embaralha a comparação.
- Escolha dois ou três finalistas. Mais do que isso cansa o ouvido; compare em pares.
- Use o mesmo arco e o mesmo trecho. Uma escala lenta, uma passagem cantada e uma rápida, dos graves da corda Sol aos agudos da Mi.
- Troque de sala. Uma sala pequena e seca e um espaço maior revelam coisas diferentes: em Paris, os violinos novos, mais sonoros debaixo do ouvido, foram também os que mais projetaram na sala de concerto.
- Feche os olhos. Peça a alguém que entregue os violinos sem dizer qual é qual.
Enquanto toca, observe também o que não é som:
- Cravelhas que giram sem trancos e seguram a afinação.
- Cordas a uma altura confortável sobre o espelho, sem exigir força excessiva da mão esquerda.
- Cavalete reto, bem apoiado no tampo, com os pés acompanhando a curva da madeira.
- Nenhuma rachadura, colagem aberta entre tampo e faixas ou zumbido ao tocar forte.
O violino ideal não é o mais caro nem o mais antigo. É o que responde ao seu braço, ao seu ouvido e à sua música, depois de bem ajustado.
O ajuste: onde o Luthier transforma o instrumento
Boa parte do som se decide em peças pequenas. O cavalete transmite a vibração das cordas para o tampo e, segundo o professor Jim Woodhouse, da Universidade de Cambridge, sua massa e seu desenho moldam uma região de som reforçado entre cerca de 2 e 4 kHz, a faixa mais sensível para o ouvido, ligada ao brilho e à projeção. A alma, um cilindro de abeto preso sem cola entre tampo e fundo, distribui a vibração pela caixa. As cordas definem boa parte da cor e da resposta.
Dica do Luthier
Se você vai trocar de violino, traga o seu atual para a comparação, como fizeram os solistas de Paris, e toque o mesmo trecho em todos. Antes de concluir que o seu instrumento "chegou ao limite", vale revisar o ajuste: um cavalete novo, a alma reposicionada ou outro jogo de cordas às vezes devolve ao violino o que parecia perdido.
Por isso, na Casa dos Violinos, cada violino da linha (todos 4/4) é selecionado e harmonizado pelo Luthier Fernando Fagundes, com cavalete francês Despiau, alma de abeto italiano e cordas austríacas Thomastik; nos modelos de topo, como Sublime e Splendore, entram madeiras europeias e verniz artesanal.
Por onde começar
| Sua situação | Primeiro passo |
|---|---|
| Primeiro violino de uma criança | Fita métrica e conversa com o professor. Na dúvida entre dois tamanhos, o menor. |
| Adulto iniciante | Um bom 4/4 de série, escolhido e ajustado com critério, é um ponto de partida sólido. |
| Troca de instrumento | Separe uma tarde, leve o professor e o violino atual e compare dois ou três finalistas às cegas. |
| Instrumento de autor | Os modelos premiados do Luthier (Stradivari, Gasparo da Salò, Pietro Guarneri di Venezia) podem ser experimentados no atelier, em São Paulo. |
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Fontes e leituras
- Player preferences among new and old violins — Fritz, Curtin, Poitevineau, Morrel-Samuels e Tao, PNAS, 2012
- Soloist evaluations of six Old Italian and six new violins — Fritz, Curtin et al., PNAS, 2014
- Listener evaluations of new and Old Italian violins — Fritz, Curtin, Poitevineau e Tao, PNAS, 2017
- Sound projection: are Stradivarius violins really better? — CNRS, 2017
- Strads vs new violins: the Indianapolis experiment — Claudia Fritz, Institut Jean Le Rond d'Alembert
- Players favour new violins over old in largest-ever blind testing experiment — The Strad, 2017
- The Indianapolis Experiment e Stradivari in Paris — Joseph Curtin, The Strad, 2012 e 2017
- Jim Woodhouse and the violin bridge — Joseph Curtin, The Strad, 2005
- Double-blind violin test: can you pick the Strad? — NPR, 2012
- Study reveals secret of Stradivari's varnishes — CORDIS, Comissão Europeia, 2009 (estudo de J.-P. Echard et al., Angewandte Chemie)
- Traditional violin craftsmanship in Cremona — UNESCO, 2012
- Finding a student violin in the proper size — Corilon Violins
- How to measure your violin to determine the size — Bass Bags (Reino Unido)
- The complete string instrument sizing guide — Shar Music
- What is a fractional size violin? — Yamaha, 2020