Quando trocar as cordas do violino
Cuidados

Quando trocar as cordas: os sinais que o ouvido esquece

Som apagado, afinação que foge, enrolamento desfiado: os sinais de corda gasta, quanto dura cada tipo e como trocar sem derrubar o cavalete.

O violinista Augustin Hadelich contou à revista inglesa The Strad que troca as quatro cordas a cada duas semanas; no verão, por causa da umidade, nunca passa disso. No outro extremo, é comum chegar ao atelier um instrumento de aluno com o mesmo jogo de cordas há três anos, e um dono convencido de que está tudo bem. Os dois casos têm algo em comum: a corda nunca avisa que acabou. Ela vai se apagando aos poucos, e o ouvido se acostuma junto.

Uma corda não morre de uma vez

A alemã Pirastro, que fabrica cordas desde 1798, diz que a perda de qualidade "acontece de forma muito gradual". Como a queda é lenta, o ouvido não tem um "antes" para comparar.

Suor e oleosidade da pele corroem o enrolamento, explica Lyris Hung, da D'Addario; breu, umidade e arestas da pestana ou do cavalete fazem o resto. Para Bernard Maillot, presidente da francesa Savarez, a hora de trocar é "quando o som começa a ficar pobre ou nebuloso, e a corda fica difícil de tocar e de afinar" (tradução livre).

Os sinais que valem uma troca

  • Som apagado ou abafado, que já não lembra o das cordas novas.
  • Resposta lenta: a nota demora a "falar" no início da arcada ou numa troca rápida de corda.
  • Quintas que não fecham: as cordas soltas estão afinadas, mas a quinta entre duas vizinhas, com o mesmo dedo, soa impura. Para a Thomastik-Infeld, esse sinal compromete a afinação de tudo o que se toca.
  • Afinação que não se sustenta e precisa de correção a cada poucos minutos.
  • Enrolamento solto, áspero ou desfiado, ou corda com aparência suja mesmo depois de limpa.

Corda gasta não costuma soar errado. Ela soa menos, e é justamente por isso que demora a ser trocada.

Quanto tempo dura um jogo de cordas?

A Thomastik-Infeld, de Viena, diz que "não há regra rígida": depende do tipo de corda, da técnica, das horas de estudo, do suor, do clima e do estado do instrumento. A tabela reúne, por perfil, o que dizem fabricantes, uma Luthier e um solista.

Perfil de uso Referência de troca De onde vem
Aluno, estudo curto e regular No mínimo uma vez por ano D'Addario; Lisa Hellmich, Luthier em Munique; The Strad
Estudo diário, orquestra, conservatório Violino e viola: idealmente a cada 3–4 meses. Violoncelo: 6–12 meses D'Addario
Profissional com concertos frequentes Em semanas The Strad; Augustin Hadelich (a cada duas semanas)
Qualquer perfil Quando o som e a resposta caírem Thomastik-Infeld: "confie no ouvido"

“Troco todas as minhas cordas ao mesmo tempo, e faço isso a cada duas semanas.”

Augustin HadelichViolinista, em entrevista à The Strad (tradução livre)

Hadelich marca a troca com pelo menos três dias de folga antes do concerto. Ninguém precisa desse ritmo, mas quem estuda todo dia com cordas de dois anos treina o ouvido num som que já não é o do instrumento.

Da tripa ao nylon: a história em quatro cordas

Durante quase toda a história do violino, as cordas eram de tripa; o metal entrou como enrolamento, que acrescenta massa sem engrossar a corda e deixa os graves mais prontos. Quatro datas explicam as opções de hoje.

  1. 1659–1664

    Primeiras cordas revestidas. Documentos ingleses citam cordas "cobertas de fio de prata", segundo a italiana Aquila Corde.

  2. séc. XVIII

    Sol revestido de metal chega ao violino na primeira metade do século.

  3. 1914–1923

    O Mi de aço vence a tripa. Na Primeira Guerra, solistas em turnê pelos Estados Unidos, sem tripa italiana, adotam o aço; por volta de 1923 ele já é a escolha dos profissionais.

  4. 1950–1970

    Cabo de aço e núcleo sintético. A Thomastik-Infeld (Viena, 1919) lança o cabo de aço em 1950, a Spirocore em 1960 e, em 1970, a Dominant, de fios de nylon, para unir o calor da tripa à estabilidade do aço.

Dois Stradivari do Metropolitan Museum of Art, feitos com um ano de diferença, resumem essa transição.

Tripa, aço ou sintético: o que muda no som

Quase toda corda tem duas partes: o núcleo, que define como ela vibra, e o enrolamento de metal (alumínio, prata, cromo), que dá massa. Para Lyris Hung, da D'Addario, a tripa tem o maior amortecimento natural: dissipa a vibração mais depressa e dá a base mais quente e complexa, com pouco brilho. E completa:

“O aço é o oposto: brilho inerente, com o menor amortecimento, mas sem muita complexidade.”

Lyris HungViolinista e gerente de produto de cordas orquestrais da D'Addario, à The Strad (tradução livre)
Núcleo Caráter sonoro Estabilidade e duração Uso típico
Tripa Quente, rico em nuances, pouco brilho Até duas semanas para estabilizar a afinação Música barroca e quem busca o timbre histórico
Sintético (nylon ou perlon e compostos mais novos) Entre os dois: mais harmônicos agudos que a tripa, mais calor e nuance que o aço 5 h (Vision, Rondo, Peter Infeld) a cerca de 2 dias (Dominant) para assentar Dominant, Vision, Peter Infeld, Rondo Gold
Aço (maciço ou cabo) Brilhante e direto, menos complexo Dura muito mais que o sintético; aço maciço fica afinado na hora O Mi do violino, padrão desde os anos 1920; violoncelo (Spirocore)

As comparações são de Bernard Maillot (Savarez) e Franz Klanner (Thomastik-Infeld), à The Strad, e do guia de cordas da D'Addario; os tempos de assentamento, da Thomastik-Infeld.

Como trocar sem derrubar o cavalete

O cavalete não é colado: fica de pé só pela pressão das cordas, e o mesmo vale para a alma, a pequena coluna de abeto entre o tampo e o fundo. Tirar todas de uma vez é pedir para os dois saírem da posição. O roteiro segue Pirastro, D'Addario e a Luthier Lisa Hellmich.

  1. Prepare a mesa. Apoie o instrumento sobre um pano macio, com as cordas novas à mão, ainda na embalagem e identificadas.
  2. Uma corda por vez. A Pirastro é categórica: só comece a próxima depois de terminar a anterior. Assim a tensão fica estável e você não confunde as cravelhas.
  3. Afrouxe devagar. Gire a cravelha até a corda velha soltar e retire-a do estandarte (ou do microafinador).
  4. Grafite nos sulcos. Passe a ponta de um lápis macio nos sulcos da pestana e do cavalete: a corda desliza ao afinar, sem arrastar o cavalete.
  5. Monte e enrole com capricho. Prenda a corda no estandarte, passe-a pelos sulcos do cavalete e da pestana e enrole na cravelha em espiras organizadas, sem cruzamentos e com tensão uniforme.
  6. Afine aos poucos, de olho no cavalete. A cada volta, olhe o instrumento de lado: a face voltada para o estandarte deve ficar perpendicular ao tampo, porque afinar puxa o topo do cavalete para a voluta.
  7. Reafine nos dias seguintes. As cordas perdem tensão de forma desigual enquanto assentam; corrija com calma, sem passar do tom.

Dica do Luthier

Se o cavalete inclinar ou uma corda "estalar" ao afinar, não force: afrouxe um pouco e traga o instrumento ao atelier. Cavalete torto acaba empenando, e sulco áspero corta a corda nova. No dia da troca, grave 30 segundos de uma escala lenta no celular; meses depois, grave de novo e compare. É a forma mais honesta de saber se chegou a hora.

Três mitos que encurtam, ou esticam demais, a vida da corda

O que se costuma dizer

  • Corda escurecida está gasta.
  • Arrebentou uma? Troco só aquela.
  • Corda nova já está pronta no primeiro minuto.

O que dizem os fabricantes

  • A prata que escurece não muda som, resposta nem tocabilidade (Thomastik-Infeld).
  • Troque o jogo inteiro: a corda nova envelhece mais rápido entre vizinhas gastas. Exceção: o Mi liso do violino (Thomastik-Infeld).
  • Ela leva de horas a dias para estabilizar a afinação, conforme o material (Thomastik-Infeld).

Pequenos hábitos, cordas mais longevas

  • Limpe o breu depois de tocar com um pano seco, macio e sem fiapos.
  • Lave e seque as mãos antes de estudar: o ácido do suor ataca e dissolve o alumínio do enrolamento (Pirastro).
  • Nada de produtos químicos ou palha de aço nas cordas: eles danificam o enrolamento.
  • Guarde o jogo reserva na embalagem original, entre 40% e 60% de umidade relativa e de 20 °C a 25 °C: dura anos sem perder qualidade (Thomastik-Infeld).
  • Instrumento com tripa parado por muito tempo? Deixe as cordas cerca de um quarto de tom abaixo (Pirastro).
  • Faça uma revisão periódica: anual para amadores, semestral para profissionais (Thomastik-Infeld). Arestas vivas na pestana ou no cavalete enfraquecem as cordas.

O olhar do atelier

Na Casa dos Violinos, todos os violinos saem com cordas Thomastik, inclusive os construídos à mão pelo Luthier Fernando Fagundes: Alphayue nos Avventura e Armonia; Dominant nos Virtuoso, Prezioso e Sogno; Peter Infeld nos Passione e Incanto; Rondo Gold no Splendore. Escolher a corda é parte do ajuste: o mesmo jogo pode soar brilhante demais num instrumento e perfeito em outro.

Na troca, conferimos também os sulcos da pestana e do cavalete, o alinhamento do cavalete e a posição da alma. Se você não lembra quando trocou as suas, provavelmente já passou da hora.

Pestana
Peça de ébano no alto do espelho, com os sulcos por onde as cordas passam até as cravelhas.
Assentar
Período em que a corda nova estica e perde tensão até se estabilizar na afinação.

Ver cordas Mais matérias

Fontes e leituras

  1. How often should I change my strings? — Thomastik-Infeld, Viena
  2. Should the entire set be changed at the same time? — Thomastik-Infeld
  3. How much time is needed to achieve pitch stability? — Thomastik-Infeld
  4. How should I store my strings? — Thomastik-Infeld
  5. How often should I visit my luthier? — Thomastik-Infeld
  6. Company history — Thomastik-Infeld
  7. String life time — Pirastro, Alemanha
  8. Changing of strings — Pirastro
  9. How often should you change your strings? — The Strad, entrevista com Augustin Hadelich
  10. Ask the experts: choosing, changing and caring for your strings — The Strad (Bernard Maillot, Franz Klanner, Lyris Hung)
  11. A beginner's guide on how to change your strings — The Strad, Lisa Hellmich
  12. Tips for changing your violin strings — The Strad, Korinthia Klein
  13. Violin, viola & cello survival guide — D'Addario
  14. String selection guide — D'Addario
  15. Wound strings for bowed and plucked instruments: what do we know? — Aquila Corde Armoniche, Itália
  16. The second revolution in the history of the violin — Elias Dann, College Music Symposium, 1977
  17. Stradivari and the transformation of tradition — Jayson Kerr Dobney e Bradley Strauchen-Scherer, The Metropolitan Museum of Art
  18. "Gould" Violin, 1693 e "Francesca" Violin, 1694 — The Metropolitan Museum of Art
  19. 50th anniversary of Thomastik-Infeld Dominant strings — B&M Orchestral World

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